oalmirante @ 01:28

Ter, 05/06/12

O papel da religião nas diferentes sociedades do mundo é algo muito controverso, e foco de discussão permanente entre crentes, crentes pela laicidade, ateus e ateus “protestantes”. Pessoalmente penso enquadrar-me na terceira opção, pois embora seja bastante sensível aos argumentos daqueles que se dizem ateus “protestantes”, nem sempre me revejo nas suas conclusões fundamentalistas, partilhando, por isso, na maioria das vezes do ponto de vista daqueles que se dizem crentes pela laicidade.

Contudo, gostaria de transcrever uma citação de Heirich Heine, que introduz o quarto capítulo de Deus não é grande, de Cristopher Hitchens, antes de proceder a uma reflexão profunda sobre este tema.

Nas eras de trevas, as pessoas são mais bem guiadas pela religião, do mesmo modo que numa noite escura como breu um cego é o melhor guia; ele conhece melhor as estradas e caminhos do que um homem que vê. Porém, quando o dia nasce é um disparate usar cegos idosos como guias.

A religião e a imagem de deus é para mim, sem dúvida, uma criação do homem. Aliás, basta ver a multiplicidade de crenças que existem por este vasto mundo fora, para constatarmos mais firmemente que deus não fez o homem à sua imagem, mas foi o homem que fez deus à sua imagem. Não nego contudo, nem tento contrariar a tendência do homem para acreditar e fazer fé na existência de algo transcendente à nossa tão real e assustadora existência, e por isso depositar as suas responsabilidades num suposto ente superior. Contudo, também é impossível negar, pela existência de factos históricos, que esta opção, aliou e alia a si uma falta de moderação e incompreensão pela liberdade individual, que gerou sociedades despóticas, do mais abominável e fundamentalista que o ser humano viu e vê até hoje. E não é de todo necessário recuar até à santa inquisição, basta-nos relembrar os contínuos massacres no Médio Oriente, a repressão das sociedades islâmicas sobre as mulheres, os atentados do IRA, entre outros, para mais uma vez provar que o homem faz deus à sua imagem.

No entanto, vivemos em Portugal, uma sociedade que foi varrida pela repressão da santa inquisição, mas que nos dias de hoje é tolerante. O papel da Igreja em Portugal foi fundamental para colmatar as falhas que o centralismo impôs e impõem ao país, desde 1143, isto é, o acesso à educação e alguns valores morais e éticos estruturantes de uma qualquer sociedade, mas também a assistência de cuidados de saúde, como ainda hoje preconizam as várias Misericórdias. A Igreja teve um papel importante na formulação da nossa identidade cultural, e apesar de presa na teia do Vaticano, a Igreja portuguesa é hoje motivo de orgulho nacional, e um exemplo internacional pela sua moderação e modernização (recordemo-nos das vezes que alguns bispos, e especialmente o cardeal patriarca têm sido chamados à atenção por querem acompanhar em demasia a contemporaneidade).

Mas aqueles que se dizem crentes precisam de dar um salto espiritual, e abandonar um pouco do fundamentalismo existente nas suas crenças. Admito que é possível acreditar no evolucionismo, na teoria heliocêntrica e compreender um acelerador de partículas sem propriamente estar a pecar. A bíblia, o alcorão, ou qualquer outro livro sagrado, tem de ser encarados enquanto obras literária e não uma narração de factos. Pois à custa desta má interpretação a religião continua a ser responsável pela morte de milhares de seres humanos, não só através da guerra, mas através do apelo insistente à ignorância, e refiro-me, por exemplo, ao preservativo, afinal de contas quantas mulheres e homens morrem no mundo, por causa da ignorância da religião relativamente a esta questão. Mas não só, relativamente à oposição que muitas vezes fazem contra campanhas de vacinação, especialmente em África, alegando ser contra a vontade de deus ou conspirações do ocidente. Isto já para não falar de alguns rituais que atentam contra a saúde.

Que diferença faz afinal matar milhões de pessoas através de palavras ignorantes, proferidas por alguém que se diz representar deus, ou os atentados do 11 de Setembro ou do IRA? É o horror?

Defendo, como sempre defendi, que o individuo deve ter liberdade para escolher, e acreditar no que quiser, conquanto não interfira na liberdade de terceiros. Pois, parece que afinal somos nós ateus que damos o verdadeiro valor à vida, talvez por constatarmos que esta é curta de mais, sem precisarmos de um livro que nos indique o que fazer, um outro ente em quem depositar as nossas responsabilidades humanas, ou viver entre o medo do céu e o inferno. Somos os responsáveis máximos das nossas acções, acreditamos em valores mínimos e absolutos de ética e moral, conquanto o resto seja relativo, pois não acreditamos no relativismo despótico da religião.

 



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